Hoje eu acordei com vontade de ser outra pessoa. Queria me chamar Joe ou Kenay, ter dezoito anos e morar em uma casa de praia na beira do mar do Havai. Meus cabelos poderiam ter pontas douradas e minha pele, a mesma cor e brilho da pele da Xuxa bronzeada no comercial do hidratante Monange. Eu então seria um surfista rico e sarado apaixonado por mim, mas ia preferir fugir de barco com um jovem pescador franzino, de olhos cor de mel. Seria como na ficção: "Quando o sol se pôr, amor, na pedra mais branca, o barco estará lá e eu também." Então eu arrumaria uma mala com sungas e blusas, ajeitaria o cabelo cor de sol praiano atrás da orelha e sairia pela janela do meu quarto atrás do meu amor tropicaliente. No caminho, ia imaginando o abraço de encontro, as risadas soltas de paixão e as noites de prazer a bordo de um barco com as iniciais do meu nome (DM). Chegaria transpirando, ansioso, amando. E não o encontraria na pedra. Nem ele e nem o barco. Aconchegaria-me na areia seca e teria os olhos fixos no horizonte do mundo. Viria a noite, o vento e as estrelas para acalentar os meus olhos. Depois da espera, levantaria subitamente, limparia a roupa e sairia em passos lentos, para que o amor pudesse me alcançar. Então, de longe, ouviria o meu nome soando na atmosfera cálida da praia: "Joe" ou "Kenay", o coração explodiria em felicidade e os passos lentos transformariam-se em uma corrida contra o abandono. Um abraço, um beijo molhado, salgado e quente, desculpas pela demora, obrigada por estar aqui e mar. Nós dois, pertencentes um do outro, com um álibi grande e azul, desmontando em ondas de espuma.